Cultura: Poçoense Ruy Espinheira é homenageado em Festa Literária Internacional


Foto: Paolo Paes

A poesia que está presente em todas as coisas captada pelo olhar e pela escrita de um mestre. Mestre das letras, das palavras, dos sentimentos e da inspiração. Com uma voz rouca e forte, Ruy Espinheira Filho declamou poemas e se aproximou de cada um que compareceu para assistir à mesa especial da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica). Uma aproximação feita pela arte.

Foto: Paolo Paes

Aos 75 anos, o homenageado da Flica foi presenteado pela organização do evento com uma escultura de outro mestre, o Doidão, artista popular de Cachoeira que morreu no dia 29 de setembro, aos 66 anos. Com a mediação delicada e atenta de Mônica Menezes, que já foi aluna de Ruy Espinheira, o poeta falou sobre processo criativo, literatura e arte.

Foto: Paolo Paes

“A criação não é uma atitude meramente intelectual. Sem a inspiração, sem a emoção, sem aquilo que flui do interior, que leva o homem a querer transmitir algo essencial, sem isso, não há literatura”, disse Ruy. Para ele, a inspiração é a essência. Porém, sem preparo, segundo ele, não dá para realizar certas coisas. “Como eu escrevo sobre a vida e com a vida, é a vida que diz o que eu vou escrever. É o que eu penso e o que eu sinto, sem teorias elaboradas”, completa.

Foto: Paolo Paes

Com humildade acima de tudo, Ruy afirma que a literatura é um processo que flui de forma natural e, se não for dessa forma, pode ser qualquer coisa, menos obra de arte. “Eu não sou estrategista, a coisa vem e eu tento lidar com ela. Quando eu consigo lidar, sai alguma coisa. Quando eu não consigo, não sai nada. Você pode levar a arte para uma pessoa, mas transformar uma pessoa em artista, com aulas de arte, não existe. A literatura é uma arte e a arte não pode ser ensinada”, defende Ruy.

Entre divagações sobre passado, influências, clássicos da literatura que fazem parte do repertório do poeta, a memória ganha destaque na fala de Ruy. “Como você rompe com o passado? A única coisa que a gente tem é o passado. Que está garantido e está pronto. O presente acabou de passar. E o futuro, a Deus pertence”, disse. “Conheça o passado para merecer o presente, e fazer alguma coisa que faça valer no futuro”, completou.

Com um público atuante e uma mediadora admirada, Ruy seguiu construindo o debate como se fosse um poema. Entre uma das perguntas da plateia, o poeta falou sobre os processos que marcam o início de uma trajetória artística. “No início da carreira de qualquer artista, ele imita para aprender. Mas ele tem que chegar à sua voz pessoal. E depois ele vai descobrir que não está lá fora a arte. É o que está dentro dele. É o sentimento, o afeto, o ódio, a indignação, o sonho. Sem o sonho ninguém faz nada”, afirma.

A respeito de cursos de criação literária, Ruy é categórico. “Eu não vou criticar as pessoas que acham que isso deve existir. Nunca fiz esses cursos na minha vida. Mas, se em um curso desses estiver um escritor, ele vai aprender coisas que vai utilizar mais tarde. Tudo para um artista é importante. Tudo é útil. Eu não faria uma campanha contra esses cursos, mas eu não ensinaria porque não me acho capaz de ensinar a fazer o que eu faço”, defende.

Em meio a lembranças de Poções e Jequié, cidades do interior da Bahia que marcaram a infância e adolescência do poeta, ele respondeu à seguinte pergunta: Você acha que no ano 3.052 ainda haverá livros e literatura? A resposta foi ao modo Ruy Espinheira Filho: “Não tenha dúvida, nós dois vamos ver isso juntos”. G1